larcavodica:

 

 

 

caminha agora pelo planeta

uma gente que é

e que é só amor arável

gentes de gentis chiados

no hálito da linguagem esticada

para dentro e para fora da terra

 

é da desesperança maior

saber e não

sentir na caixa  

algum farol desajuizado

iniciando-se a formigar

 

 

 

 

 

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Conto autoral meu, leia completo no meu outro tumblr! =) 

oquadrante:

Camilo estava em cima do pé de goiaba, enquanto Marcos, no chão, retirava os espinhos e carrapichos grudados em sua calça e na barra de sua camisa. Eu estava de pé apreciando novamente aquela paisagem, com minhas mãos na cintura com dedos apontado para as costas e polegar a frente. Eu me…

Licença quase Poética (Adélia Prado)

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira
- cargo muito pesado pra mulher,
essa espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, crio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

subsolo:

Adélia Prado

subsolo:

Adélia Prado

Mocamba Bonita

Mucama bonita, vinda da Bahia, pegai este menino e lavai na bacia

A bacia é de ouro, lavai com sabão. Pegai este menino e vesti seu roupão.

O roupão é de sêda,a touca é de filó pegai este menino e levai pra vovó.

Senhor, Senhor Jesus ouvi-me! Existo? Faz tempo que não sonho, existo? Responde-me, tem piedade de mim.

Mater dolorosa - Adélia Prado

Este puxa-puxa

tá com gosto de coco.

A senhora pôs coco, mãe?

— Que coco nada.

— Teve festa quando a senhora casou?

— Teve. Demais.

— O que que teve então?

— Nada não menina, casou e pronto.

— Só isso.

— Só e chega.

Uma vez fizemos piquenique,

ela fez bolas de carne

pra gente comer com pão.

Lembro a volta do rio

e nós na areia.

Era domingo,

ela estava sem fadiga

e me respondia com doçura.

Se for isso o céu,

está perfeito.

INTERPRETAÇÃO DE DEZEMBRO

subsolo:

acoiteanoite:

image

É talvez o menino
suspenso na memória.
Duas velas acesas
no fundo do quarto.
E o rosto judaico
na estampa, talvez.

O cheiro do fogão
vário a cada panela.
São pés caminhando
na neve, no sertão
ou na imaginação.

A boneca partida
antes de brincada,
também uma roda
rodando no jardim,
e o trem de ferro
passando sobre mim
tão leve: não me esmaga,
antes me recorda.

É a carta escrita
com letras difíceis,
posta num correio
sem selo e censura.

A janela aberta
onde se debruçam
olhos caminhantes,
olhos que te pedem
e não sabes dar.

O velho dormindo
na cadeira imprópria.

O jornal rasgado.
O cão farejando.
A barata andando.
o bolo cheirando.
O vento soprando.
E o relógio inerte.

O cântico de missa
mais do que abafado,
numa rua branca
o vestido branco
revoando ao frio.
O doce escondido,
o livro proibido,
o banho frustrado,
o sonho do baile
sobre chão de água
ou aquela viagem
ao sem-fim do tempo
lá onde não chega
a lei dos mais velhos.

É o isolamento
em frente às castanhas,
a zona de pasmo
na bola de som,
a mancha de vinho
na toalha bêbeda,
desgosto de quinhentas
bocas engolindo
falsos caramelos
ainda orvalhados
do pranto das ruas.

A cabana oca
na terra sem música.
O silêncio interessado
no país das formigas.

Sono de lagartos
que não ouvem o sino.
Conversa de peixes
sobre coisas líquidas.
São casos de aranha
em luta com mosquitos.
Manchas na madeira
cortada e apodrecida.
Usura da pedra
em lento solilóquio.
A mina de mica
e esse caramujo.
A noite natural
e não encantada.
Algo irredutível
ao sopro das lendas
mas incorporado
ao coração do mito.

É o menino em nós
ou fora de nós
recolhendo o mito.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, em “A rosa do povo”

(página 121)

"Andorinha lá fora está dizendo:
- “Passei o dia à toa, à toa!”
Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa…"

— Manuel Bandeira (via oequilibrista)

(Source: trechosdaliteratura, via p-imeys)